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Isabela Leão: os caminhos que nos levam até onde pertencemos

Isabela Leão: os caminhos que nos levam até onde pertencemos

Entre a arquitetura, o empreendedorismo e a pintura, a artista alagoana construiu uma trajetória marcada pela curiosidade, pelo fazer manual e pela coragem de recomeçar. Hoje, encontra na arte um lugar de expressão e, em Marseille, um novo espaço para descansar, experimentar e criar.

 

Há percursos que não seguem uma linha reta. São feitos de desvios, tentativas, mudanças de direção e descobertas que, aos poucos, revelam aquilo que sempre esteve ali, à espera de espaço para florescer. A trajetória de Isabela Leão é assim: múltipla, inquieta e guiada por uma vontade constante de experimentar.

Alagoana, Isabela cresceu rodeada por referências artísticas e pelo fazer manual. A avó era costureira e pintora, a tia-avó também dominava diferentes ofícios, e os pais pintavam. A arte fazia parte do seu universo desde cedo, embora, naquela altura, ela ainda não se reconhecesse como alguém capaz de criar. Preferia observar, absorver e admirar, sem imaginar que um dia encontraria ali o seu próprio caminho.

 

A primeira escolha profissional foi a Engenharia, mas a experiência não correspondeu às suas expectativas. Depois de alguns anos, decidiu interromper o curso. O desejo de estudar cinema deu lugar a outras possibilidades, como Moda e História da Arte, até que a Arquitetura surgiu como um encontro inesperado. Nos primeiros semestres, encontrou disciplinas que dialogavam diretamente com os seus interesses: fotografia, história da arte e plástica. Com o tempo, vieram também as exigências técnicas da profissão, os códigos e as normas que fazem parte da prática arquitetônica. Ainda assim, concluiu a formação.

A partir daí, a inquietação continuou a abrir portas. Em Santa Catarina, realizou um sonho antigo ao criar a Aniceta, uma loja de moda praia retrô batizada em homenagem à avó materna. Paralelamente, desenvolvia projetos de arquitetura. Mais tarde, regressou a Maceió, onde abriu um escritório com uma amiga. O projeto não seguiu adiante, mas o encerramento deu lugar a uma nova experiência: a recuperação de um sobrado dos anos 1950 no centro da cidade e a abertura do restaurante Cambito, em parceria com um antigo companheiro. Foi uma fase intensa e especial, interrompida pela pandemia, quando o restaurante fechou e as obras de arquitetura também pararam.

 

Foi nesse período de incerteza que a pintura, até então praticada como hobby, ganhou outro significado.

Sem poder trabalhar como antes, Isabela precisou de repensar a própria trajetória. A arte surgiu como uma possibilidade concreta de reconstrução, mas também como uma forma de se aproximar de algo que, de certa maneira, sempre fizera parte da sua vida. Desde 2020, passou a comercializar as suas pinturas e a construir uma carreira artística. Ao olhar para esse percurso, sente que finalmente encontrou o lugar onde deveria estar.

Uma prática feita de constância e entrega

O trabalho de Isabela é marcado por um ritmo intenso de produção. A artista organiza o seu calendário em torno de lançamentos mensais no site, com cerca de doze pinturas novas por coleção, além de uma agenda de encomendas. O processo exige dedicação, disciplina e muitas horas diante da tela — por vezes, mais de doze por dia.

 

À época deste relato, preparava-se para o vigésimo terceiro lançamento consecutivo. Um feito que revela não apenas a sua produtividade, mas também a consistência com que vem desenvolvendo o próprio trabalho.

No entanto, mesmo quando fazemos aquilo que amamos, existe um momento em que o corpo e a mente pedem uma pausa. Depois de um período de trabalho contínuo, que incluiu até a construção da sua própria casa, Isabela percebeu que estava a aproximar-se do limite. Precisava de descansar, desacelerar e recuperar espaço para si mesma.

Foi assim que decidiu reservar outubro para uma experiência diferente: passar uma temporada no sul de França.

Marseille como casa temporária

Em Marseille, Isabela encontrou um apartamento acolhedor, pertencente a Micka, francês, e Gaby, brasileira. A hospitalidade dos dois tornou a chegada mais leve. Entre recomendações sobre a cidade, apoio e pequenos gestos de cuidado, a artista encontrou um lugar onde se sente em casa, mesmo estando longe da sua.

A ideia inicial era simples: descansar. Ler, ver filmes despretensiosos, passear sem pressa e aproveitar a liberdade de não ter uma agenda preenchida por prazos e entregas. Depois de tantos meses dedicados à produção, havia algo de essencial em permitir-se não fazer nada — ou, pelo menos, não transformar cada momento numa tarefa.

Mas a criatividade nem sempre respeita os planos de descanso.

Em meio aos passeios pela cidade, Isabela acabou por entrar numa loja de materiais artísticos. Saiu de lá com tintas e telas, pronta para aproveitar a inspiração que Marseille lhe oferecia. O que começou como uma pausa transformou-se também numa oportunidade de experimentar novas ideias e dar forma à coleção que será lançada em novembro, no Brasil.

Há algo de bonito nessa contradição: mesmo quando tenta afastar-se do trabalho, a artista continua a encontrar motivos para criar. Não necessariamente por obrigação ou pela necessidade de cumprir um calendário, mas porque a curiosidade que a acompanha desde sempre permanece viva.

O espaço entre descansar e criar

A história de Isabela Leão lembra-nos que encontrar o nosso lugar nem sempre significa chegar a um destino definitivo. Às vezes, significa reconhecer o que nos faz sentido depois de experimentar outros caminhos. Noutras ocasiões, é preciso parar, mudar de cenário e olhar para a própria vida com alguma distância para perceber o que precisa de ser transformado.

 

Da Engenharia à Arquitetura, do empreendedorismo à pintura, Isabela foi construindo uma trajetória que não descarta as experiências anteriores. Pelo contrário, cada etapa parece ter acrescentado uma nova camada ao seu olhar, à sua sensibilidade e à forma como se relaciona com o mundo.

Agora, entre as ruas de Marseille, os dias mais lentos e as telas recém-compradas, a artista vive um intervalo necessário. Um tempo para respirar, observar e deixar que as ideias surjam sem tanta pressão.

Talvez seja justamente aí que resida a beleza deste momento: perceber que descansar e criar não precisam de ser movimentos opostos. Às vezes, é quando nos permitimos sair da rotina que voltamos a encontrar aquilo que nos move.

E Isabela, que passou tantos anos a experimentar caminhos diferentes, parece ter descoberto que a pintura não é apenas mais uma etapa da sua história. É o lugar a partir do qual pode continuar a explorar todas as outras.