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Empreender para se reinventar

Empreender para se reinventar

Ser mulher, negra e imigrante ainda significa enfrentar desafios adicionais em muitos contextos. Mas há quem transforme essas barreiras em força para construir novos caminhos. É o caso de Denise Vié, angolana de 28 anos que vive em Lisboa há uma década e encontrou no empreendedorismo uma forma de reinventar a própria trajetória. Após concluir os estudos em Direito pela Universidade Europeia de Lisboa, quando tinha por volta de 24 anos, chegou a ensaiar alguns passos na recente formação. Mas a necessidade de empreender falou mais alto. Daí nasceu a Brus, uma loja de produtos em cerâmica e utensílios para casa localizada entre a Baixa e o Chiado, em Lisboa. A história da fundadora da Brus é um exemplo de perseverança, reinvenção e criatividade. Ao construir a sua própria oportunidade, Denise encontrou na cerâmica uma ferramenta para dar forma aos seus sonhos e criar uma marca com identidade própria. Conheça melhor o percurso de Denise Vié nesta entrevista concedida ao blog “A Casa é um Rosto”, do Studio Mathinna.

 

Quem é Denise Vié? Há quanto tempo mora em Lisboa e como foi a vossa trajetória?

Eu sou uma jovem mulher de 28 anos, sonhadora e que está em constante evolução. Descubro sempre uma versão nova e melhor de mim com o passar do tempo. Estou sempre a cometer erros novos e aprender com eles. Nasci em Angola e hoje sou imigrante em Portugal. Moro em Lisboa há 10 anos. A minha trajetória começa no sul de Angola. Nasci e cresci num contexto não muito adequado para uma criança, mas tive uma infância com momentos felizes e também difíceis.

Falar da minha trajetória será sempre um desafio para mim. Mas lembro-me do momento em que atingi a maioridade: comecei a tomar decisões por mim e a mudar o rumo da minha história. Quando tinha 19 anos, estava prestes a entrar na faculdade e, com a ajuda familiar, consegui vir para Portugal para estudar. Terminei os estudos na Universidade Europeia de Lisboa e, por volta dos 23/24 anos, surgiu em mim a necessidade de entrar no mercado de trabalho. Comecei a trabalhar com o que eu menos esperava: sou jurista e trabalho como empreendedora no ramo da cerâmica. Resumindo, hoje sou uma mulher adulta e independente, que escolheu Portugal para viver e formar uma família.

 



Na vossa concepção o que significa “morar bem”?

Morar bem, para mim, significa ter paz, sentir-me segura e feliz. Posso resumir um dia feliz da seguinte forma: acordar entre as 7h e as 8h, tomar um banho, tomar o pequeno-almoço em casa ou num café ao lado, passear com o meu cão e ir para o trabalho depois de deixar o meu filho na escola. No final da tarde, busco o meu filho, voltamos para casa e jantamos em família. Parece simples, mas o simples, com paz e amor, é o que significa morar bem para mim.

 

 

Há algo ou um objeto que remete a vossa pátria?

Talvez eu não seja a pessoa mais ligada à minha cultura, apesar de ser 100% angolana. Tirando a música, não acho que haja algo que remeta à minha cultura dentro da nossa casa.

 


 

Qual foi a maior mudança de mentalidade/gosto que refletiu na vossa casa?

A maior mudança, sem dúvida, foi na alimentação. Há cinco anos que sou 100% vegetariana e não pretendo deixar de ser nunca. Sou vegetariana por questões de saúde e consciência; sinto-me bem assim, mais saudável e mais feliz.

 


 



Em que momento da vida você sente que está agora? E como foi a trajetória da sua marca?

Sinto que ainda estou em fase de construção. Sou grata por tudo o que tenho, tanto a nível profissional como pessoal, e tento aproveitar tudo ao máximo. A trajetória da minha marca nasceu da necessidade de criar o meu próprio trabalho e da minha paixão por decoração e por uma estética artística bem apurada.

 

 

Como lidas com tendências sem perder autenticidade?

Hoje em dia, é muito difícil não ceder às tendências, mas tento ir sempre para o clássico porque tenho medo de arriscar e de me arrepender depois. Tento ser sempre fiel aos meus gostos para manter a minha autenticidade.

 

 

Existe algum objeto que conta uma história importante da sua vida?

Essa é uma pergunta difícil. Como imigrante, muitas vezes temos de deixar para trás muitos objetos e, quase sempre, perdemos coisas importantes, ficando apenas com memórias e lugares. Eu não tenho absolutamente nada do meu passado.

 

 

Qual foi a sua maior dificuldade como imigrante?

Ser imigrante é muito difícil. Enfrento diariamente um novo desafio, seja a nível burocrático, seja na necessidade de provar o nosso valor — algo que, sendo eu uma mulher preta, é ainda mais exigente. Não consigo descrever uma situação específica como a maior dificuldade, mas talvez arrisque dizer que é conquistar um espaço no mercado empresarial quando ainda sou vista como alguém que não pertence àquele meio.

 

Como equilibrar a rotina de empreendedora e ainda ter tempo para vida pessoal?

Gerir a vida de empreendedora e a vida pessoal é um pouco desafiante. Há momentos em que estou mais inclinada para a empresa e outros em que me dedico mais à vida pessoal, que é sempre a minha prioridade. Ainda assim, para conseguir uma boa gestão, conto com a ajuda de pessoas próximas.

 


 

O que consideras sucesso em um mundo tão performático?

Para mim, sucesso é poderes escolher como viver, fazer o que funciona para ti e amar a tua própria vida, apesar de quereres sempre mais e melhor. Acho muito importante aproveitar a nossa jornada. Ter sucesso é ter saúde física e mental e dinheiro suficiente para ter paz, pelo menos para ter tudo pago no final do mês.

 

Qual decisão mais impactou sua trajetória?

A decisão de sair de Angola.

 

 


Como é um “Domingo perfeito”?

O domingo perfeito depende do clima. No inverno, um domingo perfeito é poder acordar lentamente, como se o mundo lá fora tivesse parado. Sem telemóveis, de preferência, porque isso acaba por atrapalhar o nosso dia. É bom estar em casa, descansar, ver um filme e comer uma comida confortável. Já no verão, o domingo perfeito começa com planos para sair e apanhar sol na companhia de amigos, família, boa música, comida e bebidas geladas.

 

Qual foi o ponto de partida da decoração da sua casa?

O ponto de partida para a decoração da minha casa foi o sofá da sala. Ele agora já está meio cansado, mas eu ainda não tinha casa própria quando fui a uma loja de segunda mão e vi a peça. Gostei tanto que disse: "Se eu tivesse uma casa grande, comprava esse sofá". Um mês depois, consegui a casa e o sofá ainda lá estava à minha espera.

 

 

Dica de ouro; 5 passos para empreender?

Eu sou empreendedora, mas acredito que empreender não seja para todas as pessoas. É um caminho muito difícil. Tem muitas vantagens, mas é preciso ter muita paciência.

Os cinco passos de ouro que eu gostaria de ter ouvido são:

* Evitar sempre dívidas;

* Ter cuidado com as pessoas;

* O segredo é a alma do negócio;

* Tratar os outros como gostaríamos de ser tratados;

* Cuidado com as emoções (nunca, em hipótese alguma, ser sentimental).

 

 

Qual é a sua comida favorita?

Eu não tenho uma comida preferida, eu amo comida italiana, pasta tem o meu coração, amo comida asiática também. E uma boa feijoada vegana.

 

Lugares preferidos em Lisboa? (lojas, restaurantes, cafés, museus…)

São tantos lugares preferidos:

Lojas: BRUS (loja de cerâmica e artigos para casa); BRUS POTTERY STUDIO para fazer uma aula de cerâmica; A Vida Portuguesa; AUAKE

Restaurantes/cafés: Magnólia; Marquise; Gal Café; Katsu; Boa Bao

Lugares: Praça das Flores; Fundação Gulbenkian; Colares; Jardim da Estrela; Lapa

 

 

O que você faz só por prazer, sem obrigação?

O que eu faço só por prazer: ver livros de decoração, sair para passear, comprar flores, ouvir música.

 

 

 

Uma viagem especial que marcou sua vida?

Uma em especial foi para a Suécia, em fevereiro de 2023.

 

O que você ainda quer viver, criar ou experimentar? Qual é o seu maior sonho hoje?

Quero muito fazer uma viagem para um lugar específico da Ásia e criar uma estabilidade muito maior para o meu negócio. O meu sonho é continuar a evoluir e aprender mais sobre cerâmica.

 

 

 

Lugar preferido no mundo?

Gosto muito de Mallorca, é um lugar para onde eu gostaria de viajar todos os anos.

 

Quais pequenos momentos fazem tudo valer a pena?

Os pequenos momentos que fazem valer a pena são aqueles em que estou distraída a viver, sem olhar para o relógio ou para o telemóvel.

 

 

Quais transformações sentistes depois da maternidade?

Depois da maternidade, a minha vida mudou em muitos aspetos. O principal é a forma como vejo o mundo: quero estar bem e saudável, mental e fisicamente, para ajudar o meu filho a ser um bom ser humano numa sociedade tão carente de princípios.

 

Como é a vossa rotina num dia comum?

Um dia comum depende sempre de onde estamos, já que o meu marido trabalha fora de Portugal. Por isso, há uma rotina quando estou em Lisboa e outra quando estou fora.

Em Lisboa: É estar em casa, ir para o trabalho e passear muito com o meu filho.

Fora de Lisboa: Acordar em família, ficar em casa, cuidar do meu filho e, no final do dia, eu e o meu marido tirarmos um tempo de qualidade para os dois.

O que não pode faltar em uma casa angolana (fora de Angola)?

Na minha casa, sendo angolana, não pode faltar boa música.

 

O que a cerâmica representa na vossa vida ? Dicas para quem quer experimentar este universo?

Para mim, a cerâmica foi fundamental para mudar o rumo da minha história, tanto a nível profissional como pessoal. Eu atuo no mercado como empreendedora e não como ceramista em si; se fosse para dar uma dica, seria apenas sobre o empreendedorismo.

 

 

Fotos: Carol Lancelloti