A confeiteira Juliana Penteado carrega no currículo o fato de ser a primeira brasileira a receber o prêmio Pastry Talent of the Year, edição de 2026, realizada em Paris. Quem já teve a oportunidade de ver (e comer) um dos doces produzidos por Juliana vai entender o porquê de ela ter recebido o prêmio. Quem não, pode dar uma passadinha na sua loja na Calçada da Estrela, em Lisboa, e conferir as iguarias. Nascida e criada em São Paulo, Juliana formou-se em Nutrição e Gastronomia e depois cursou o Grand Diplôme na Le Cordon Bleu, em Londres. Em 2018, decidiu viver uma experiência fora do Brasil e mudou-se para a capital portuguesa. A loja completou cinco anos de vida em 2026. “Foi aqui que criei a minha pastelaria e consegui juntar todas as minhas referências: a minha origem brasileira, a técnica francesa e os ingredientes e sabores que fui descobrindo em Portugal”. É na confeitaria que Juliana consegue explorar uma delicadeza, um lado mais feminino e uma estética que têm muito a ver com ela. Para além dos doces, mas sempre com eles, Juliana abriu as portas do seu apartamento em Lisboa para receber o blog do Mathinna, “A Casa é um Rosto”. Aqui, ela conta um pouco dos seus gostos, referências e das suas inspirações. “A casa precisa ser uma continuação da gente. Um lugar onde você se reconhece, onde estão as coisas que contam a sua história e que fazem sentido para você. É o nosso refúgio, o nosso conforto mais íntimo”, Para ela, é importante saber ler o lugar onde se vive, a cidade, a arquitetura, a luz e também a energia do momento. “A casa precisa acompanhar quem somos naquela fase da vida. Por isso, gosto de deixar que ela vá se formando naturalmente.”
1. Quem é Juliana Penteado? Onde nasceu/cresceu, como a gastronomia entrou na sua vida e como foi parar em Lisboa?
Sou brasileira, nasci e cresci em São Paulo. A gastronomia sempre fez parte da minha vida, mas foi um caminho que fui descobrindo e construindo aos poucos. Nesse percurso, me formei em Nutrição e Gastronomia e fiz o Grand Diplôme na Le Cordon Bleu, em Londres.
Depois de alguns anos trabalhando em São Paulo, surgiu uma vontade muito grande de viver uma experiência fora do Brasil. Foi assim que vim parar em Lisboa. O que era para ser uma mudança e uma nova experiência acabou se transformando na minha vida.
Foi aqui que criei a minha pastelaria e consegui juntar todas as minhas referências: a minha origem brasileira, a técnica francesa e os ingredientes e sabores que fui descobrindo em Portugal.




2. Dentro da gastronomia, já sabia que a confeitaria era o caminho a seguir ou foi uma descoberta? Falar um pouco sobre a história da loja…
Eu sempre gostei muito de confeitaria. Acho que meu olho sempre brilhou um pouco mais para esse lado. Sinto que nela consigo explorar uma delicadeza, um lado mais feminino e uma estética que têm muito a ver comigo. Mas eu amo cozinhar também. Acho que, aos poucos, a vida foi me levando para a confeitaria de uma forma muito natural.
A loja veio um pouco desse desejo de criar um espaço onde eu pudesse colocar tudo isso junto e desenvolver uma confeitaria com uma identidade muito minha.




3. Para você, o que significa “morar bem”?
Para mim, a casa precisa ser uma continuação da gente. Um lugar onde você se reconhece, onde estão as coisas que contam a sua história e que fazem sentido para você. É o nosso refúgio, o nosso conforto mais íntimo.
4. Gosta de alguma linha decorativa ou a decoração é um processo que vai se fazendo aos poucos?
Acredito que a decoração seja um processo que vai se construindo aos poucos. Amo o estilo nórdico por exemplo, mas não sei se seria o estilo no qual eu me sentiria mais confortável para viver atualmente, em Lisboa.
Acho importante sabermos ler o lugar onde moramos, a cidade, a arquitetura, a luz e também a energia do nosso momento. A casa precisa acompanhar quem somos naquela fase da vida. Por isso, gosto de deixar que ela vá se formando naturalmente.



5. O que não pode faltar em uma casa brasileira?
Acho que não pode faltar vida. Cor, plantas, música.
A casa brasileira tem muito essa energia do acolhimento, da informalidade e da vontade de receber. Mesmo quando não está tudo perfeito, existe calor. Para mim, isso é muito mais importante do que uma casa impecável.




6. Qual foi a maior mudança de mentalidade ou gosto que refletiu na sua casa?
Passei a entender que a minha casa precisava ser uma continuação de mim, e não a reprodução de alguma referência que eu tivesse visto. Hoje, entro aqui e me vejo. É muito doido sentir isso.
As plantas, as flores, o colorido, os livros e os objetos que fui adquirindo ao longo da vida refletem muito quem eu sou hoje. Acho que a principal mudança foi perder o medo de misturar e deixar a casa mais viva e intuitiva.



7. Como lida com tendências sem perder autenticidade?
Acho que o mais importante é saber do que você gosta de verdade. Na minha casa, tento não seguir tendência só porque está em alta. Claro que algumas referências acabam entrando, mas sempre de um jeito que tenha a ver comigo, com as coisas que já gosto e com a forma como quero viver aquele espaço.
Para mim, autenticidade vem muito disso, escolher o que faz sentido para você e o que realmente te representa.
8. Existe algum objeto que conta uma história importante da sua vida?
Nossa, a minha casa é feita da junção de muitos momentos, lugares e fases da minha vida. Não consigo escolher apenas um objeto.
Tenho livros que amo, pedras, plantas, utensílios de cozinha e objetos de decoração que trouxe de viagens ou encontrei em momentos especiais.



9. Em que momento da vida você sente que está agora? E como foi a trajetória da sua marca?
Sinto que estou em um momento de muito movimento e aprendizado. Estamos sempre nos reinventando e tentando entender o mercado. Acredito que um dos grandes erros seja estacionar e achar que encontramos uma fórmula definitiva.
Hoje vejo a minha marca em um lugar muito diferente daquele que imaginei quando projetei tudo. E faz parte. Coisas maravilhosas aconteceram, enquanto outras tomaram rumos diferentes do que eu esperava. Tudo isso serve de aprendizado.




10. No universo da gastronomia, o que faz os seus olhos brilharem?
Uma comida feita com amor. Todo mundo sente quando existe verdade e cuidado no que está sendo servido.
Para mim, a comida é matéria viva. Existe uma troca de energia entre quem faz e quem recebe, e eu levo isso muito a sério. Podemos ter a melhor técnica do mundo, mas, se não existir entrega, falta alguma coisa.




11. Como equilibrar a rotina de empreendedora e ainda ter tempo para a vida pessoal?
Ui, vou ser sincera: nunca consigo me desligar completamente do meu negócio. Acho que empreender carrega um pouco desse peso, ainda mais quando se está sozinha à frente de tudo.
Mesmo quando não estou fisicamente trabalhando, uma parte da minha cabeça continua pensando na equipe, nas lojas, nos produtos e nas decisões que precisam ser tomadas. Ainda estou aprendendo a criar limites e a entender que descansar e viver também fazem parte do trabalho. É da vida pessoal que muitas vezes vêm o repertório, a energia e a inspiração para continuar criando.




12. O que considera sucesso profissional?
Para mim, sucesso profissional é conseguir construir algo no qual eu realmente me reconheça. É ter liberdade para criar, conseguir sustentar uma equipe e perceber que o nosso trabalho toca as pessoas de alguma maneira.
Sucesso não é apenas crescer ou aparecer. É conseguir olhar e entender que existiu coerência na trajetória, mesmo com os erros e as mudanças de caminho.



13. Qual decisão mais impactou sua trajetória?
Ter saído do Brasil sem ter ideia do que viria pela frente. Deixar o certo pelo incerto e me entregar completamente a essa aventura.
Eu tinha uma carreira construída em São Paulo, mas sentia que precisava viver alguma coisa diferente. Essa decisão me tirou de um lugar conhecido, me obrigou a recomeçar e abriu espaço para tudo o que construí em Lisboa.


14. Dica de ouro: três passos para empreender?
Primeiro, acreditar verdadeiramente no seu negócio. Se você não acreditar, será muito difícil fazer com que outras pessoas acreditem.
Segundo, ter resiliência. Empreender é lidar diariamente com imprevistos, erros,
Terceiro, cercar-se de pessoas que tragam segurança e direcionamento, principalmente nas questões legais, financeiras e contabilísticas. Bons advogados, contabilistas e profissionais de confiança fazem muita diferença.


15. Como é um domingo perfeito?
Agora no verão com certeza eu diria que acordar com calma, tomar um café gostoso e pegar um belo dia de praia com um livrinho na mão.
16. Lugares preferidos em Lisboa?
Lisboa tem muitos tesourinhos, mas se tivesse que resumir diria:
Comer: Bar Alimentar
Uma voltinha na Fundação Gulbenkian e dar um pulo na Under the Cover
Para café tenho meus cantinhos que mais frequento: Magnolia, Buna ou Albi (que são bem pertinho de casa e da loja).
Um vinho do black sheep na Praça das Flores.


17. Qual é o seu prato ou doce favorito?
Meu doce favorito é tiramisù. Amo quando ele é bem equilibrado, cremoso, com bastante sabor de café e sem ser muito doce.
É uma sobremesa aparentemente simples, mas que, quando é muito bem feita, tem tudo: textura, intensidade e delicadeza


18. O que você faz só por prazer, sem obrigação?
Mexer com plantas e flores. É algo que me acalma e me faz desligar um pouco do ritmo do trabalho e mundo afora.


19. Uma viagem especial que marcou sua vida?
O Japão. É uma loucura a quantidade de estímulos, a cultura e a beleza de tudo por lá.
Fiquei muito impactada pela maneira como eles trabalham os detalhes, o silêncio, a estética, o cuidado, os rituais e a relação com os alimentos.


20. O que você ainda quer viver, criar ou experimentar? Qual é o seu maior sonho hoje?
Ainda quero viver muitas experiências em outros lugares do mundo e permitir que isso alimente o meu trabalho. Quero criar projetos que ultrapassem um pouco os limites da confeitaria e se conectem com outros universos que amo, como arte, moda, design, perfumaria, flores e viagens.
Meu maior sonho hoje é ver a minha marca crescer de forma consistente, chegar a novos lugares e continuar despertando emoção nas pessoas, sem perder a essência, o cuidado e a liberdade criativa que sempre fizeram parte dela.


21. Lugar preferido no mundo?
A Bahia. Existe uma energia ali que é muito difícil explicar. A mistura da natureza, do mar, da comida, da música, das cores e das pessoas faz com que eu me sinta muito conectada com a vida.


22. Quais pequenos momentos fazem tudo valer a pena?
Tomar um café com calma, sem precisar sair correndo.
Aquele diazão de praia com um almocinho pé na areia.
Viajar sem muita programação e ir descobrindo as coisas pelo caminho.
Cozinhar para pessoas que eu gosto♡
Fotos: Carol Lancelotti




